.
"Não pode deixar de causar perplexidade os ataques de que Marinho Pinto (ou Marinho e Pinto) tem sido alvo. Ele não fala baixinho, não sussurra, não vive dos seus próprios venenos, e em nada contribui para garantir a quietude das águas palustres. Vai-nos revelando, com estremecedor vozeirão e gestos a condizer, que muitos componentes da sociedade portuguesa, criminais e legais, estão imbricados uns nos outros. E tem exigido que sejam submetidas a controlos reais algumas veneráveis instituições e suas actividades peculiares.
Não me parece que Marinho Pinto haja sido tocado pela desonestidade, pela indecência, pela indignidade, ou movido por interesses cavilosos. Querem-no brunido, direitinho, ajeitado, dentro da esquadria: um artesão formal da aplicação das leis e seu complacente vigilante. Ele é, definitivamente, o contrário dessa banalização precaucionista que atingiu todo o tecido social e garantiu a instauração da indiferença, do abandono cívico e, finalmente, da coisificação do medo.
As velhas classificações foram recuperadas do pó dos armários ideológicos: populista, esquerdista radical, chavezista; e apontado, acriticamente, à execração popular, entre maliciosas meias-frases, silêncios ambíguos e sorrisos equívocos. O homem fala alto e grosso, enfrenta situações perigosas porque, nitidamente, está a mexer em áreas historicamente inamovíveis e diz-nos de uma justiça, na sua opinião "miserável" e desprovida dos "valores mais elementares."
O discurso do bastonário da Ordem dos Advogados exige uma reflexão profunda e uma discussão alargada, não o aluvião de injúrias e de insultos de que ele tem sido objecto. Na minha opinião, o que Marinho Pinto tem vindo a afirmar quebrou uma espécie de solidariedade aldeã, ou seja: aquilo que nos era apresentado como poderoso bloco, inabalável na coesão, sem ferrugem e sem mácula, um dos pilares da democracia, não passava de uma farsa avariada. Ele tem ou não razão? Ele mente ou diz a verdade? Ele é, ou não, um homem sério? Conhecem-se-lhe desígnios menos claros do que os sabidos da opinião pública? A exigência ética que proclama é a afirmação individual de um combate ou a máscara de uma fatal incoerência?
O problema complica-se, ainda mais, quando se evoca a "cadeia" da justiça, tal como a compreende o comum dos mortais. Contudo, o comum dos mortais é diariamente confrontado com a desconstrução do que deveria ser o grande edifício democrático.
Dizem que ele acusa sem nomear. Mas, os que dizem, nomeiam-no sem rigorosamente o acusar de coisa alguma. Convém interrogarmo-nos sobre o que nos não tem sido dito."
Post-Scriptum: Não sei se reparam, já restituiram o braço e a arma à Maria da Fonte!...
.








