21 janeiro 2008

A BANDEIRA NACIONAL - II

Caro Egas, face ao deserto que é a falta de comentários dos amigos que convoquei para esta questão, o desenvolvimento generoso que deste ao teu comentário, é uma honra. Responder de forma clara, tornaria a caixa de comentários uma estopada e retiraria o efeito mais visível que acho que a resposta merece. Porque não é matéria onde é fácil convencer alguém a mudar de opinião, limito-me apenas a justificar porque vejo a nossa bandeira assim, embora fosse desnecessário uma vez que dizes “compreender”.

Certamente que não duvidas da intensidade com que gosto do nosso País/Nação, porque já leste aqui o suficiente para verificar que essa é aliás uma tónica de grande parte do que escrevo. Isto, não quer dizer que goste da mesma forma do meu País/Região ou de tudo o que o represente, porque ambos sabemos reconhecer o muito mau de algumas coisas que nos representam. O paradoxo é que temos que reconhecer que nos representam bem, porque representam infelizmente uma parte do que somos. Assim o escalpe da minha reflexão sobre a Bandeira, não deve ser entendido de outra maneira que não seja a análise fria daquela representação “formal” de Portugal, porque, o conteúdo dessa representação estará sempre salvaguardado pela matriz a que me orgulho pertencer. Mas vejamos:

“...São símbolos quase sagrados que existem num nimbo etéreo”. - Ainda bem que não o são totalmente, porque senão teríamos aí um problema. Mas, sagrados?! Os Estados do Ocidente são laicos! Surpreendes-me porque, mesmo sendo religioso nunca deverias atribuir ao um símbolo estatuto desses: nem sagrado, nem profano!

“... se não mesmo uma traição à História Nacional...” - ( ! ) Por momentos a palavra assustou-me, Egas. Deduzo então que quando D. Manuel alterou, traiu a História Nacional, igualmente quando a República alterou, traiu a História Nacional, se no 25 de Abril – uma revolução - tivéssemos alterado, teríamos traído a História Nacional, e todos os réis que mexeram na bandeira andaram a trair a História Nacional? A Espanha anda desde 1931 a trair a sua História Nacional: já leva cinco alterações,
vê aqui. Francamente, não me parece que as coisas possam ser ditas desse modo.

“ ... uma certa associação da Bandeira Nacional ao Estado Novo.” - Tu és um filho do 25 de Abril, nasceste em plena liberdade. Nunca viste aquela bandeira apropriada por uma doutrina castradora, porque todas as que viste na tua juventude irradiar à tua volta eram o resultado do efeito daquela garrafa de champanhe. Aquela bandeira para ti estava limpa, era uma bandeira com a liberdade agarrada. Ao contrário, eu nasci em pleno Estado Novo, os ideais da implantação estavam mortos e nada me diziam. Nasci numa terra e com gente com uma forte consciência das liberdades a que tinha direito. Tive familiares próximos, presos por acharem que lhes cortavam as suas liberdades. A minha escola foi feita com livros onde aquela bandeira era empunhada por meninos fardados com o verde e os símbolos da ditadura nos cintos e nos bonés e a saudação era feita de braço no ar. Vi colegas em formatura desmaiarem ao sol, numa cerimónia oficial com todos os símbolos do fascismo ali misturados. Não me peças que limpe esta imagem que tenho desde a infância. A instauração da República não sei o que foi, sei o que foi a perpetuação da Ditadura enrolada nesta bandeira.

“...A Bandeira Nacional espelha a nação que representa, sendo, por isso, um compêndio da sua História....” - Felizmente que as coelhinhas do Playboy não foram nenhum símbolo representável daquela época, senão teríamos que os aturar agora na bandeira, ou então que a representação da escravatura não era um símbolo elegível para a bandeira, senão teríamos hoje que andar a esconder a bandeira. Eu não me orgulho de tudo quanto fizemos na nossa história, e não vejo que uma bandeira tenha que ser um compêndio da sua História,
verifica aqui estas. Quanto aos símbolos religiosos da bandeira remeto para o que disse mais acima.

“...o vermelho será o sangue e a esfera a representação da epopeia dos descobrimentos, e com ela tudo o que de mau os portugueses fizeram durante essa época (genocídio, escravatura, etc) ...” - Dito desta forma irónica parece estares a negar a existência da escravatura, o que nem acredito.

“... E porquê o verde-azeitona? Só por ser mais compatível? Porquê os louros?!, símbolo que não apresenta qualquer associação próxima com Portugal.” - Agora achas que inventei alguma coisa, mas remeto-te
aqui para esta imagem onde podes ver que não inventei verdes nem louros, já existem e fazem parte do chamado Estandarte da Bandeira Nacional e são exibidos pelo mundo fora pelo Exército Português.
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P.S. - Aqui fica um trabalho de Josh Parsons, " The world's flags given letter grades " com algum interesse, sobre as bandeiras mundiais, que tem o mérito de ter partido de uma metodologia préviamente criada e responde a algumas das questões que aqui levantei.

2 comentários:

Egas disse...

Caro Graza,
Ando meio apertado de tempo pelo lamento informar que ainda não será hoje que reponderei condignamente a este teu post onde o meu anterior comentário é destaque.

Por agora fica o meu reconhecimento de que exagerei um tanto ou quanto nalguns dos termos que apliquei. Sobretudo, tendo em conta o meu respeito pela tua opinião e pela forma como fundamentas as mudanças que defendes.

Espero em breve poder comentar mais detalhadamente.

Suadações

Graza disse...

Não te apoquentes Egas, que o contraditório é bem vindo e eu não corro atrás de unanimismos! A tua opinião apesar divergente é igualmente uma demonstração de patriotismo, e isso, é o mais importante.