02 junho 2009

Interesses, inveja, política.

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Finalmente os portugueses deram com Marinho e Pinto. Porém, apontar-lhe como defeito exactamente aquilo que acho que é a sua virtude, é tornar a concordância à volta do seu discurso num diálogo de surdos, porque não basta concordar acrescentando um “mas”, ao contrário, é precisamente esse “mas” a mais valia. Marinho e Pinto teve o condão de estiolar o sacro santo discurso desta falsa sociedade que impõe o tom de voz à razão, e o polimento do comportamento como verniz social ao suor que a força da verdade cria, isto, está ele finalmente a fazer com coragem, porque tem sido o arremesso dessas regras de meninos de coro bem comportados que tem castrado qualquer discurso de revolta. Em Portugal e nos portugueses, há ainda uma sociedade bafienta, retrógrada e conservadora, onde o engravatamento e o pedantismo se impõem surdamente como medos sociais para os acarneirar, para que outra espécie de sordidez verbal exista noutros moldes em circuito fechado. E é também nas erupções dos malfadados corporativismos das nossas classes profissionais que ele se manifesta, quer sejam médicos, magistrados, jornalistas, professores ou as tias da Quinta da Marinha, onde só se entra com santo e senha. Mas preparem-se, ele continuará a ser atacado por essa Direita elitista e mais estranho, é sê-lo também por gente ligada à Esquerda com ataques despudorados que mais parecem ciumeira. Sabem os que vos digo? Contra o castramento da revolta que nem pecisa de armas, viva a Maria da Fonte, porque o que mais temos são Cabrais. Aqui fica Baptista-Bastos, no DN Opinião em 27 de Maio, que pergunta: Quem tem medo de Marinho e Pinto?

"Não pode deixar de causar perplexidade os ataques de que Marinho Pinto (ou Marinho e Pinto) tem sido alvo. Ele não fala baixinho, não sussurra, não vive dos seus próprios venenos, e em nada contribui para garantir a quietude das águas palustres. Vai-nos revelando, com estremecedor vozeirão e gestos a condizer, que muitos componentes da sociedade portuguesa, criminais e legais, estão imbricados uns nos outros. E tem exigido que sejam submetidas a controlos reais algumas veneráveis instituições e suas actividades peculiares.

Não me parece que Marinho Pinto haja sido tocado pela desonestidade, pela indecência, pela indignidade, ou movido por interesses cavilosos. Querem-no brunido, direitinho, ajeitado, dentro da esquadria: um artesão formal da aplicação das leis e seu complacente vigilante. Ele é, definitivamente, o contrário dessa banalização precaucionista que atingiu todo o tecido social e garantiu a instauração da indiferença, do abandono cívico e, finalmente, da coisificação do medo.

As velhas classificações foram recuperadas do pó dos armários ideológicos: populista, esquerdista radical, chavezista; e apontado, acriticamente, à execração popular, entre maliciosas meias-frases, silêncios ambíguos e sorrisos equívocos. O homem fala alto e grosso, enfrenta situações perigosas porque, nitidamente, está a mexer em áreas historicamente inamovíveis e diz-nos de uma justiça, na sua opinião "miserável" e desprovida dos "valores mais elementares."

O discurso do bastonário da Ordem dos Advogados exige uma reflexão profunda e uma discussão alargada, não o aluvião de injúrias e de insultos de que ele tem sido objecto. Na minha opinião, o que Marinho Pinto tem vindo a afirmar quebrou uma espécie de solidariedade aldeã, ou seja: aquilo que nos era apresentado como poderoso bloco, inabalável na coesão, sem ferrugem e sem mácula, um dos pilares da democracia, não passava de uma farsa avariada. Ele tem ou não razão? Ele mente ou diz a verdade? Ele é, ou não, um homem sério? Conhecem-se-lhe desígnios menos claros do que os sabidos da opinião pública? A exigência ética que proclama é a afirmação individual de um combate ou a máscara de uma fatal incoerência?

O problema complica-se, ainda mais, quando se evoca a "cadeia" da justiça, tal como a compreende o comum dos mortais. Contudo, o comum dos mortais é diariamente confrontado com a desconstrução do que deveria ser o grande edifício democrático.

Dizem que ele acusa sem nomear. Mas, os que dizem, nomeiam-no sem rigorosamente o acusar de coisa alguma. Convém interrogarmo-nos sobre o que nos não tem sido dito."

Post-Scriptum: Não sei se reparam, já restituiram o braço e a arma à Maria da Fonte!...

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4 comentários:

Ricardo S disse...

Caro João, apenas um apontamento, já que conhecemos bem a posição um do outro: o "mas" que o João considera inevitável, atendendo ao estilo de Marinho Pinto, eu considero o seu principal problema. Isto é, considero perfeitamente possível um Bastonário, outro Bastonário, dizer o que Marinho Pinto diz, fazer as mesmas críticas a apontar os dedos às mesmas pessoas visadas por Marinho Pinto, mas noutro modo, com mais sensatez e contenção nas palavras escolhidas. Porque existe uma diferença entre as acusações "você é um fascista" e "você tem atitudes pouco próprias de um democrata". Marinho Pinto usa a primeira, eu considero que a segunda é mais correcta e mantém o essencial da crítica.
Abraço.

tacci disse...

Entre o estilo "caceteiro" e o "punhos de renda", Marinho Pinto não terá encontrado, talvez, um tom suficientemente equilibrado.
Mas, quando vemos toda a gente a usar argumentos ad hominem, sabemos que está a pôr o dedo nas feridas.
Graças, São Nuno de Santa Maria!

Graza disse...

Caro Ricardo. Faço questão que entenda que aquela minha verve que fala da sociedade bafienta ... não pretende atingir os amigos de quem conheço a opinião, dado que por outras razões os considero.

A conclusão que tiro será então que Marinho e Pinto prestou já um enorme serviço à Justiça porque a partir de agora – e por causa dele - pode finalmente aparecer o tal bastonário a dizer o mesmo noutro formato? Ou vai dizer o mesmo noutro formato de tal forma que se esfuma tudo pelo impacto que não tem? E se o Almada não tivesse dito que o Dantas cheirava mal da boca, que era um cigano, especulava e inoculava os comcubinos, tería sido ouvido?! É deste medo reverencial que falamos Ricardo. Almada avisou-nos: “... Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia – se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará commigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseiado!” As roturas com qualquer statu quo nunca são pacíficas, é próprio do egoísmo natural do ser humano não o permitir e essas roturas justificam a veemência nas acções, dado que não estamos na tal sociedade utópica onde o bem comum ditaria que os afectados acatassem a transformação. Não há que ter medo das palavras. Receio que o triunfo do que preconiza seja para que mudando a merda as moscas sejam as mesmas. Desculpa lá o formato, mas como vê a frase perde a força de o disser doutro modo!

Um abraço.

Graza disse...

Já todos conhecemos este país o suficiente Tacci, para sabermos que é verdade o que ele diz e ao qual muito poucos se atrevem, porque a teta tem que continuar a correr! Só não percebe o que se passa com os jovens advogados quem não quizer. Ele tem isso muito bem explicado no seu livro e no que tem dito. E a intocabilidade de alguns comportamentos na nossa Justiça deveria ser intolerável, porque já lá vão 35 anos!

Um abraço