13 maio 2012

Primeiros resultados do 12 de Maio - IV

Nunca um poema se adaptou aqui tão bem. A fraca adesão em Lisboa, à manif do 12 de Maio - face às espectativas (as minhas) - não digo num futuro efeito da Primavera Global PT, porque acredito sempre neles, dá todo o sentido a este excelente poema do Almada.

Como nos faz falta uma força assim que impulsione a juventude acomodada, que ontem foi a banhos, porque dos outros, já não falo. Perderam-se nos desencantos. E desencantam.

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“ÀS GERAÇÕES PORTUGUESAS DO SÉC. XXI

Acabemos com este maelstrom de chá morno!
Mandem descascar batatas simbólicas a quem disser que não há tempo para a criação!
Transformem em bonecos de palha todos os pessimistas e desiludidos!
Despejem caixotes de lixo à porta dos que sofrem da impotência de criar!
Rejeitem o sentimento de insuficiência da nossa época!
Cultivem o amor do perigo, o hábito da energia e da ousadia!
Virem contra a parede todos os alcoviteiros e invejosos do dinamismo!
Declarem guerra aos rotineiros e aos cultores do hipnotismo!
Livrem-se da choldra provinciana e da safardanagem intelectual!
Defendam a fé da profissão contra atmosferas de tédio ou qualquer resignação!
Façam com que educar não signifique burocratizar!
Sujeitem a operação cirúrgica todos os reumatismos espirituais!
Mandem para a sucata todas as ideias e opiniões fixas!
Mostrem que a geração portuguesa do século XXI dispõe de toda a força criadora e construtiva!
Atirem-se independentes prá sublime brutalidade da vida!
Dispensem todas as teorias passadistas!
Criem o espírito de aventura e matem todos os sentimentos passivos!
Desencadeiem uma guerra sem tréguas contra todos os "botas de elástico"!
Coloquem as vossas vidas sob a influência de astros divertidos!
Desafiem e desrespeitem todos os astros sérios deste mundo!
Incendeiem os vossos cérebros com um projecto futurista!
Criem a vossa experiência e sereis os maiores!
Morram todos os derrotismos! Morram! PIM!”

Almada Negreiros



4 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

... muito bom, Graza :))
Um grande abraço... solidariamente e indignado :))

Rogério Pereira disse...

Muitos se espantam por António Gedeão ter deixado suas memórias aos netos dos seus netos...

Diz seu post que bandeiras existem.
Talvez falte perceber o sentido que elas terão... talvez se o forem percebendo as ruas se irão enchendo...

Graza disse...

Pois sim, Ana Paula, mas não a vi por lá. :( Teria a companhia de outros amigos, de outras lutas... Ainda está a tempo, e não precisa de desacreditar na democracia representativa que temos. Não é obrigatório. Embora se questione também.
Foi e está a ser interessante, ver eminentes figuras desenquadradas do ecran, sentadas na relva: uma forma de exorcizar os formalismos que arrastamos.
Obrigado. Um abraço.

Graza disse...

Rogério: Aquela bandeira foi colocada na árvore por um grupinho de simpáticas espanholas. Como não a conhecíamos fomos perguntar que bandeira era. Responderam que “Esta es la bandera de um país que aún no existe”. Mas como é possível as ruas perceberem isto? Se o Poder tem medo as televisões não filmam, as rádios não ouvem, os jornais não escrevem, resultado: somos perigosos marginais, para os peregrinos de Fátima gente perdida, sem salvação. Rezam por nós. É o que nos vale.
O Poder, baseado no sistema parlamentar vigente, sabe que construiu um modelo imune a implosões. Hermético, André Freire chamava-lhe hoje: cartelizado. Como pode então permitir que as massas obedientes conheçam alternativas renovadoras?