06 maio 2005

OS "CINEMA EUROPA" DESTE PAÍS.

A recente tertúlia a que tive o grato prazer de assistir, organizada pela Comissão SOS Cinema Europa, na centenária Padaria do Povo, leva-me à seguinte reflexão:

Uma das grandes dificuldades do Povo Português, é a sua enorme dificuldade em aderir de modu próprio e com empenho, a uma “causa”.

Sempre que o faz, é com paixão, mas tem que ser bastante empurrado para isso. Timor é um exemplo.

Vive, na enorme letargia de quem pensa que alguém providenciará por ele, a resolução do problema.

Auto dispensa-se da participação, parecendo até que geneticamente lhe foi transmitido o conhecimento dos mecanismos de funcionamento deste “emperramento” nacional, contra o qual não vale a pena lutar.

Descarrega a sua consciência, concordando civicamente entre muros, por vezes exibe alguma vergonha quando expõe essa aderência, temendo à sua volta os olhares da crítica.

Atribui-se a si próprio, enquanto cidadão, menos direitos do que se atribui enquanto indivíduo, no que resulta num fraco conceito de cidadania que o leva à aceitação e à resignação.

Vem isto a propósito da luta dos habitantes de Campo d’Ourique pela preservação de espaços como o Cinema Europa e o Cinema Paris. Seria bom que tivessem a consciência de que esta luta ultrapassa pelo seu sucesso ou insucesso, os limites das suas freguesias e é extensível a todo o País. Seria assim como se estivessemos em Direito e falassemos de “Jurisprudência”. É um efeito com que se pode obter o mesmo resultado.

Pode dizer-se por isso que o que está em discussão é mais do que o Cinema Europa, conforme bem explicaram os intervenientes naquela conversa, tendo ficado bem patente na apresentação dada pelo nosso amigo catalão da Galeria Zé dos Bois, ali para o Bairro Alto, com o exemplo que nos trouxe dos Centros Cívicos de Barcelona que desconheço, mas que convido todos a descobrirem.

Valia por isso a pena fazer passar a mensagem às freguesias daqueles Cinemas (Campo d’Ourique, Lapa, Prazeres e Santa Isabel) que podem muito bem fazer história, por oposição ao que foram os crimes cometidos contra obras primas como o Monumental ou o Éden e tantos outros. Mas para isso, têm que passar de um apoio passivo a uma atitude mais interventiva e dinâmica.


Não há nesta luta com os poderes económicos envolvidos vitórias antecipadas. É mesmo preciso participar, porque é a Cultura e a preservação da memória das cidades deste país que está em risco. Qualquer dia acordamos e Lisboa é um condomínio fechado "noveau riche" q.b..

3 comentários:

toix disse...

Obrigado pela sua visita. Reparei que não foi a primeira, e eu tenho-me esquecido de retribuir. Sobre este seu post só tenho um reparo a fazer, é sobre o nosso empenho no caso de Timor. Acho que aquela "onda branca" teve mais a ver com a má consciência em relação à questão colonial que outra coisa. Foi um exorcisar dos demónios. Mas foi positivo.
Quanto ao resto, tenho imensa pena, mas dou-lhe razão.(lusofolia)

Graza disse...

Um exorcisar dos demónios? Talvez. E haveria quem precisasse de o fazer. Comigo duvido que tenha sido, porque, sempre me vi ao lado daquela luta mesmo quando atravessava o deserto do esquecimento e o desânimo era total nas vigilias de protesto que se faziam com três ou quatro activistas em noites frias e de chuva.
Claro que foi positivo e este mundo seria melhor se houvesse mais gente a conseguir exorcisar os seus demónios.

Loolady disse...

Estou a visitar o seu blog pela primeira vez, vinda do Lusofolia.
De longe, do norte, mando-lhe aqui a minha autorização para me inscrever nas fileiras do seu movimento, pela defesa dos cinemas europa,(aqui no porto também há alguns...) contra a impunidade dos homens que deitam os sobreiros ao chão...enfim...pela dignificação deste país, pelo levantar de cabeças, endireitamento das costas, porque me parece que os olhos estão abertos...